quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Palestra no IOS em Dezembro/2010

Para aqueles que se dedicam, todo esforço sempre vale a pena. Após grandes desafios, é natural ter a sensação de que a vitória parece um sonho e que os arranhões adquiridos ao longo do caminho já não doem mais. Na formatura realizada para os alunos do IOS do segundo semestre de 2010, porém, foi mais que uma impressão. Participar de um evento tão aguardado trouxe a certeza de que dedicação e força de vontade são os requisitos básicos para se chegar longe. E, ao longo da celebração, muitas foram as provas disso.

No Clube Associativo dos Suboficiais e Sargentos da Aeronáutica de São Paulo, o clima do dia 19 de dezembro foi de muita festa, no melhor estilo baile de gala. Depois da entrada triunfal dos alunos, percorrendo todo o salão principal, bem como dos professores, a Presidente do IOS, Rosane Chene, deu início à cerimônia. Partilhando do sentimento de realização que tomava conta dos jovens, declarou: “A gente conseguiu mais um passo!”, aproveitando para parabenizar igualmente os pais e familiares presentes. Ao pedir aplausos à equipe de professores que também foi responsável pelo sucesso daquela trajetória, todos se levantaram para atendê-la com a honra devida aos docentes.

Para que tal homenagem fosse completa, a Presidente convidou ao palco a Instrutora de TI que mais se destacou dentre as Unidades. Justamente por não amarrar suas lições apenas à técnica, mas “Contagiar seus alunos a irem até a comunidade e ver o que ela precisava”, segundo Rosane, Priscilla Feraretti foi eleita a representante unânime de todas as classes e, em seu discurso, confirmou o êxito:

“Eles percorreram comunidades ajudando pessoas carentes. Não levaram só doações, mas amor, carinho e calor humano. Hoje, não são apenas jovens prontos para o mercado de trabalho, mas jovens com responsabilidade social”.

Rosane, ainda, apresentou paralelos entre as turmas de 2010 e as do ano anterior, evidenciando a triplicação da empregabilidade dos jovens IOS e os lembrando da grande responsabilidade que se iniciava naquele momento: “Foi só o término de uma fase. Agora, inicia-se outra: coloquem o conhecimento adquirido em prática”. Em um gesto comum à época natalina, presenteou os formandos com orientações muito especiais:

Disciplina, já que “Tudo que nos propomos a fazer temos de fazer da melhor forma”; Amizade, pois “Com amigos e família, ela se torna um pilar muito grande”; Otimismo, que “Traz um bem enorme, espanta a tristeza, não nos deixa desistir e contagia a todos”; Trabalho, afinal “Trabalhar é tirar uma ideia da cabeça e pô-la em ação”; Perseverança, porque “É muito difícil que aquilo em que acreditamos fique perfeito da primeira vez”; Responsabilidade, para lembrar que “Tudo que a gente faz deve ser com respeito a tudo e todos”; Coragem, “Principalmente no mundo de hoje, quando é preciso coragem até para dizer não – às drogas, ao preconceito, à corrupção”; Generosidade, para se “Estar sempre pronto a estender a mão e doar sempre o seu melhor”; e, por fim, uma porção bem grande de Gratidão: “Nunca se esqueçam de agradecer. Sentimos-nos melhor quando somos gratos”.

Nesse momento, a Presidente solicitou que os alunos agradecessem uns aos outros e até por aquilo que não possuem, além de um reconhecimento verdadeiro a Deus: “Não tem preço acordar todos os dias e ter a chance de fazer tudo melhor. Se cultivarem esses presentes estarão sempre prontos”.

A palavra foi passada ao Vice-presidente de Atendimento e Relacionamento da TOTVS, Wilson de Godoy, que contou, brevemente, a história da instituição, resumindo-a conscientemente na frase: “Dizer que somos generosos é muito egoísmo, pois recebemos muito mais do que fizemos”. Wilson não se esqueceu de aconselhar os formandos: “Não imaginem que as coisas vão cair no colo de vocês: é tudo muito difícil”. Longe de parecer rude, o Vice-presidente foi realista e sincero. E, se alguém teve dúvidas quanto a isso, a palestra motivacional com o Psicólogo Maurício Franklin trouxe a confirmação.

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Os formandos IOS não deveriam esperar por palavras utópicas sobre o mercado profissional nem uma fábula do emprego ideal. Desde o início, Maurício deixou claro que nunca se deve deixar de acreditar. Mas, que, enquanto isso, é primordial batalhar. Ao longo de sua exposição, citou personalidades célebres – desde o menino que virou rei, Davi, até Mark Zuckerberg, o criador da rede social Facebook. Apresentando uma curiosa pesquisa norte-americana, fez notar que 87% dos medos enfrentados pelas pessoas não possuem fundamento e que isso se deve à mudança que a sociedade vem sofrendo, onde os bens são descartáveis, compram-se sentimentos e a estrutura familiar está totalmente repaginada. O conhecimento, entretanto, continua – e com ainda mais força – o único item a sobreviver às gerações.

Um dos pontos culminantes de sua palestra foi a exibição do vídeo Did you know (2008), onde fica clara a necessidade de se tomar atitudes pessoais diante do crescimento mundial – nem sempre representando evolução – em paralelo com a perda de noção do tempo. “Dá para ficar parado?”, questiona o psicólogo, já sugerindo a resposta: “Custa caro ficar parado. Custa nossa vida”. A constatação, vale lembrar, não é apavorante. Ao contrário: os formandos IOS aprenderam lições valiosas antes mesmo de vivenciá-las, mesmo sabendo que, segundo um provérbio citado por Maurício, “Quando se busca o cume da montanha não se dá importância às pedras no caminho”.

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O último a subir ao palco e conversar com os formandos foi, possivelmente, uma das presenças mais aguardadas. Ernesto Haberkorn, Sócio Fundador da TOTVS, anunciou os sete primeiros colocados gerais dentre as Unidades IOS de São Paulo, e solicitou a cada um que descreve seus planos futuros e o sentimento por fazer parte de tão seleto grupo. Emocionada, a primeira colocada, Beatriz de Deus Grotto (Vila dos Remédios), mal acreditava na conquista: “Esforcei-me, estudei, fui atrás e não desisti: foi o que eu fiz”. A segunda colocada, Angélica Adriano Pio da Silva (Jabaquara), compartilha o raciocínio: “Para cada etapa terminada, começa outra”. Em busca da realização dos sonhos estavam as terceira e quarta colocadas, respectivamente, Ritielle Moraes Pereira (Santana) e Ana Beatriz Minervino Bataglin (Lapa). Guerreiro, o quinto colocado Marcus Vinicius Eugênio (Santo Amaro) afirma que objetiva “Vencer na vida”. E os sexto e sétimo colocados, Jessica Silvestre da Silva (Itaquera) e Élisson Gonçalves dos Santos (Diadema), dão a receita do sucesso: “Nunca parar de estudar”, segundo ela, e “Conhecimento”, para o jovem.

Encerrando a solenidade com a música Heal the World, de Michael Jackson, o IOS lembrou aos futuros profissionais o poder que cada um possui para curar o mundo e transformá-lo em um lugar melhor. Durante o baile, pais, familiares e os próprios formandos contaram ao blog sobre a alegria por mais uma realização. Um deles foi Marcus Vinicius, um dos primeiros colocados. Embora ainda sem acreditar em tudo quanto estivesse vivendo, sabia o quanto era recompensador. Sua mãe, Silmara Porfírio, foi uma de suas principais incentivadoras: “Que ele tenha fé, garra e coragem para seguir estudando”. Traço peculiar da família, o talento para se destacar também se fez presente em sua prima Angélica, que ficou em segundo lugar geral. Para a mãe da jovem, Nelma Adriano Pio da Silva, “Valeu a pena o esforço de viajar duas horas para ir e duas horas para voltar do IOS. Que ela continue assim!”. Muito orgulhosa, a avó dos dois formandos, Iraci Bonifácio Porfírio, também registrou sua satisfação: “Outras formaturas virão, mas o IOS foi a melhor coisa que aconteceu na vida deles”.

Para Camila Galani, ex-aluna IOS, todo esse apoio é fundamental. Formada em junho pelo Instituto, mas já contratada pela TOTVS desde maio, a jovem realizou seus sonhos porque sempre acreditou em si mesma. Hoje, transmite essa energia aos alunos, estimulando-os a não desistirem: “Nunca parem. Quando comecei o IOS, já tinha o desejo de trabalhar na TOTVS. Por isso, se querem conquistar um objetivo, foquem nele. Quando conseguirem, foquem em outros”. Além das conquistas profissionais, o Instituto também oferece a oportunidade de construir grandes amizades. Maicon Rogério de Andrade (Diadema), colega do sétimo colocado geral, Élisson, comenta o fato: “O IOS ensinou coisas que eu não sabia, trouxe amizades ótimas e mais capacitação”.

É por isso que, ano após ano, o sucesso do Instituto da Oportunidade Social tem se solidificado gradativamente. Aqui, alunos formam bagagens que levarão para toda a vida, carregadas de conhecimento, valorização, amizade, cidadania. O ponto de chegada deles não são nossas salas de aula, mas o futuro que sempre sonharam. Parabéns, formandos IOS!

http://blog.ios.org.br/

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

“O que será, o que será?” (a repetição “eterna” do sofrimento?) – uma visão psicanalítica

Sempre me causou espanto o fato de muitas pessoas se tornarem verdadeiras especialistas em sofrimento ou, de outra forma, de se colocarem em situações de perpetuação de angústias e dor. O que será que dá nas pessoas? Um exemplo clássico está naqueles que particularmente buscam prazer na dor física, que encontram satisfação atacando o próprio corpo de forma violenta, muitas vezes com objetos cortantes para obtenção de prazer. Além destes, não fica difícil reconhecer o quanto o sujeito dito normal também não pratica a busca de satisfação através do sofrimento, seja submissões simples ou perversas, mas constantes fantasias. Quem nunca se sacrificou para obtenção de um bem maior no futuro, para atingir um objetivo, que atire a primeira pedra. Afinal, parece que tudo que vem suado é mais gostoso, não?! Seria este também um sinal de um masoquismo constituinte, de uma tendência do neurótico, que precisa dar conta de algo inconsciente através de justificativas falíveis?

Incontáveis são os exemplos de vida onde a dor e o sofrimento se fazem presentes, numa dialética de amor e ódio, prazer e dor, com o sentido de obter outras satisfações, aparentemente uma satisfação por alívio, por descarga. Hoje, ao entrar numa Universidade, vejo mais idosos e aposentados se esforçando para estudar, sacrificando suas vidas em rotinas das mais estressantes, onde não haveria necessidade alguma. Aposentados, poderiam desfrutar mais de suas vidas em atividades prazerosas e divertidas já que “tinham feito a sua parte”. Se não há mais necessidade desse tipo de sacrifício, necessidade de busca pela sobrevivência, por que então escolher um caminho difícil de um estudante? E os analistas e psicólogos que escolheram como forma de viver ouvir inúmeros relatos de sofrimento, perdas e desesperos, dia após dia, por horas infinitas. Mesmo aqueles que não lhes infringe qualquer tipo de castigo físico, como que por obra do azar, com freqüência se aproximam de situações de humilhação e maus tratos e sem conseguir se safar delas. Uma aflição medonha nos faz implorar?

“O homem é o animal mais cruel contra si mesmo;

e, em todos os que se dizem “pecadores” e “penitentes”

e “portadores de cruz”, não vos passe despercebida

a volúpia que há nesses lamentos e acusações!”

F. Nietzsche, Assim falou Zaratustra

De alguma forma, parece que o sujeito é constituído de certa dose de masoquismo, como fundante do psiquismo, que o orienta nessas direções. Partindo da teoria psicanalítica, a questão do masoquismo foi aparecendo e se estruturando em primeiro plano durante a obra de Freud.

“Cada recém-chegado ao mundo está imbuído do dever de consumar o Complexo de Édipo; quem não consegue está fadado a neurose. [...] Na raiz de todo sintoma, encontramos impressões traumáticas que tem origem na vida sexual infantil.”

S. Freud

Em 1915 em Instintos e suas Vicissitudes, Freud traz a idéia de que o masoquismo estaria presente na psique humana em decorrência de um sadismo vivido através de um sentimento de culpa movido a satisfação sexual.

“A psicanálise pareceria demonstrar que infligir dor não desempenha um papel entre as ações intencionais originais do instinto. Uma criança sádica não se apercebe de que inflige dor ou não, nem pretende fazê-lo. Mas, uma vez ocorrida a transformação em masoquismo, a dor é muito apropriada para proporcionar uma finalidade masoquista passiva, pois temos todos os motivos para acreditar que as sensações de dor, assim como outras sensações desagradáveis, beiram a excitação sexual e produzem uma condição agradável, em nome da qual o sujeito, inclusive, experimentará de boa vontade o desprazer da dor.”

Presente nas relações do triangulo amoroso do Complexo de Édipo, Freud notou não somente o funcionamento dessa particularidade masoquista nos seres humanos, como postulou uma necessidade desse sofrimento para que a civilização se estabelecesse. A interdição do Pai como instaladora da cultura. Aqui, atitudes ambivalentes da criança, de amor e ódio, de desejo e medo, em relação aos que ama e depende, se desdobrará no aparecimento da personalidade deste futuro adulto como prolongamento dessa neurose infantil chamada de Complexo de Édipo. A ênfase se dá na possibilidade de realizações de desejos – “incestuosos” – ou na evitação dos mesmos. Nascemos, portanto, especialmente “codificados” através da relação com os pais cujo resultado certamente instala a neurose que, de forma patológica, torna-se fóbica, obsessiva ou histérica.

“O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo”

O que dificulta o entendimento de uma tendência masoquista é justamente a concepção de que os processos psíquicos são orquestrados pelo Princípio do Prazer, partindo do princípio econômico de regulação da tensão em seu nível mais baixo. Prazer é não ter variação de tensão num princípio de constância.

“A tendência dominante da vida mental e, talvez, da vida nervosa em geral, é o esforço para reduzir, para manter constante ou para remover a tensão interna devida aos estímulos (o ‘princípio do Nirvana’)”

Além do Princípio do Prazer (1920)S. Freud

Partindo de observações das brincadeiras com seu neto, dos sonhos traumáticos de guerra e da transferência em análise, Freud percebe uma compulsão do ser humano em repetir algo do desprazer. Assim, no jogo do Fort Da a criança repete a experiência dolorosa do afastamento da mãe; nos sonhos se atualizam a situação traumática repetidamente; na transferência o paciente repete situações penosas ao invés de rememorá-las. Nesse trabalho, muda sua concepção anterior e apresenta as pulsões de vida e morte, que passam a dirigir o funcionamento psíquico. Assim coloca que tudo o que vive há de morrer e que, dessa forma, o ser humano teria como objetivo a morte.

“Se tomarmos como verdade que não conhece exceção o fato de tudo o que vive morrer por razões internas, tornar-se mais uma vez inorgânico, seremos então compelidos a dizer que ‘o objetivo de toda vida é a morte‘, e, voltando o olhar para trás, que ‘as coisas inanimadas existiram antes das vivas‘.”

Além do Princípio do Prazer (1920)S. Freud

Já em 1924, em “O problema econômico do masoquismo”, Freud percebe que talvez a dor e o prazer teriam um fim em si mesmo apresentando então três maneiras masoquistas distintas de se obter o prazer: através do sofrimento físico, da fantasia e a opção por um estilo trágico de se viver. Assim temos, de um lado, o masoquismo feminino e moral, como também o masoquismo erógeno que se aproxima do erotismo.

O masoquismo erógeno, caracterizado como prazer na dor, é base para as outras manifestações masoquistas. Nele encontramos o fusionamento das pulsões de vida e morte, num embate como tentativa de encaminhar a pulsão destruidora para fora. A resultante é sádica, via pulsões sexuais, e masoquista, quando parte dessa resultante fica fixada, represada, no organismo. Assim temos um masoquismo erógeno como resíduo da pulsão de morte que permanece no organismo.

No masoquismo feminino, o homem fantasia cenas de maus tratos como sintoma de uma necessidade de castigo derivado de um sentimento de culpa. Tais cenas promovem efeito prazeroso pela descarga do gozo.

Assim a ideia de um masoquismo originário se apresenta oposta da ideia de um masoquismo decorrente de um sadismo.

“A libido tem a missão de tornar inócuo o instinto destruidor e a realiza desviando esse instinto, em grande parte, para fora – e em breve com o auxílio de um sistema orgânico especial, o parelho muscular – no sentido de objetos do mundo externo. [...] Outra porção não compartilha dessa transposição para fora; permanece dentro do organismo e, com o auxílio da excitação sexual acompanhante acima descrita, lá fica libidinalmente presa. É nessa porção que temos que identificar o masoquismo original, erógeno” (Freud, 1924).

No masoquismo moral, Freud acentua a necessidade de sofrimento e dor como resultado da relação entre o Eu e o Superego. Há uma demanda incessante de castigo que remete a relação poderosa com seu pai do Édipo, bases de fantasias de espancamento por ele e desejos de uma relação sexual passiva. O sadismo do superego e o masoquismo do ego convergem para uma culpabilidade sem limite culminado numa autodestruição do sujeito por si mesmo, numa satisfação libidinal inconsciente.

Parece que são diferentes versões de tendências masoquistas presentes na constituição do ser humano. Uma vez que os seres humanos se estruturam num triangulo – Édipo – o “pai” se faz relevante na estruturação psíquica da criança. Essa ama a mãe e o pai interfere nesse amor. A interferência do pai, o limite, é o que possibilita a entrada da criança na sociedade, assim como o amor da mãe forma a base para uma vida amorosa. As falhas de resolução aqui, a ausência da castração, é que vai abrir caminho para uma estrutura perversa ou psicótica. O sujeito então, fica agarrado a idéia de objeto de prazer do outro, como objetivo de prazer original fusionado com a mãe, que não permite qualquer outra forma de afeto se não o de estar para alguém. Assim, não “conhecendo” outras formas mais saudáveis de vivência, fica preso nessa engrenagem psicológica de sua constituição, impedido de realização a não ser pelo intermédio de ser sujeitado pelo outro.

A interdição frustrante do Pai e as consequentes falhas na saída do Complexo de Édipo marcam o sujeito num ponto fixo de desprazer, que o determina e assim o joga para repetição em várias esferas de sua vida. A dificuldade se dá na exigência do psiquismo em se manter ai, constituído como via “conhecida” de representação. Assim como a criança, no exemplo do for-da de Freud, repete para dar conta da angústia, o sujeito masoquista em questão irá repetir situações de “sofrimento” até conseguir reelaborar a marca fixada, quebra-cabeça esse exaurido pela vida ou batalha dificílima empreitada no divã do analista.

Assim temos no masoquismo uma relação de repetição gozosa, orientada pela pulsão de morte, que nunca cessa de se inscrever, presente no âmago de todos os sujeitos e, necessariamente, atuando nos bastidores da clínica das neuroses.

“O que será, que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda a alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite”


REFERÊNCIAS

Freud, S. - “Além do Princípio do Prazer”

- “Uma criança é espancada”

- “O problema econômico do masoquismo”

- “O instinto e suas vicissitudes”

- “Três ensaios da teoria sexual”

Nasio. J. D. – “Édipo” – Zahar. 2007

Fenichel, Otto. – “Teoria Psicanalítica das Neuroses” – Atheneu.

Hanns, Luiz. – “Teoria pulsional na clínica de Freud” – Imago. 1999

Kury, Jorge. – “Desenvolvimentos e Psicopatologias Psicanalíticas” – Papirus. 1988

Belém, Marisa. – “Mulher no Brasil” – Escuta/Fapesp. 2000

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Seja bem-vindo Fernando Pessoa

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já tem a forma do nosso corpo e esquecer os caminhos antigos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia - e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."


Fernando Pessoa

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Narcisismo e as relações de trabalho e liderança

“Tudo quanto penso
Tudo quanto sou,
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.”

Fernando Pessoa


A atividade profissional de um cidadão captura, se não a totalidade, uma grande parte de seu tempo de vida. Homens e mulheres absolutamente entregues à rotina de trabalhos cada vez mais exigentes vão contribuindo para um aumento contínuo de doenças e desajustes emocionais, todos praticamente amparados por uma sociedade que, ao invés de promover a libertação do ser, parece sim exercer força disciplinadora sobre os corpos e espíritos onde nem as crianças se vêem livres. Parece que os interesses sociais visam mais controlar os sujeitos do que promover sua libertação, pensamento este compartilhado por Gilles Lipovetsky (2004) em “Os tempos hipermodernos”, numa busca incessante pelo poder, dinheiro e beleza em detrimento de um amadurecimento subjetivo.

Os mecanismos de controle historicamente conhecidos parecem atuar, atualmente, de forma mais subjetiva, talvez através das comunicações e tecnologias, sobre o sujeito moderno. Os sujeitos se vêem sempre a mercê dos ditames sociais sem ao menos perceber o grau de controle e direcionamento destes sobre suas vidas. Ao mesmo tempo em que vemos a valorização da autonomia e independência destes vemos também um sujeito perdido e completamente esquecido de si. Se a idéia de que o desenvolvimento pessoal, o crescimento e a felicidade passam pela projeção na carreira profissional esta, cada vez mais embasada pelo conhecimento adquirido, parece contribuir para o surgimento de um paradoxo: quanto mais se conhece, mais se aliena. Os fatos comprovam tal afirmação quando se assiste aos jornais diários ou verifica-se o quadro de internações e consultas dos hospitais e clínicas diversas. Cada vez mais as pessoas estão envolvidas em angústias, infelicidades e doenças. As situações de desestruturação humana não estão mais restritas aos menos favorecidos econômica ou intelectualmente, mas sim numa enorme massa de sujeitos, a priori, preparados para se desenvolver e amadurecer de forma saudável e, acredito, “vencer na vida”.

O paradoxo observado é, por um lado, o alcance cada vez mais facilitado do conhecimento e, por outro, a distância entre esse conhecimento e a produção de qualidade de vida. Observando a vida profissional, percebemos que a qualidade de liderar pessoas, entre outras, exercem grande influência na carreira dos sujeitos e no nível de qualidade desse profissional. Desenvolvem-se para se tornarem líderes, pois dotados dessa qualidade é que poderão subir na carreira. Nesse sentido, os crescentes investimentos das organizações, de modo geral, em cursos, treinamentos e processos de aconselhamentos em liderança mostram o grau de importância dessa qualidade na condução de uma organização. Mas, contrariando o previsível, esse esforço intelectual passa as margens da ação do ego, da influência do narcisismo impactante no modo como se tecem as relações de troca entre esses sujeitos. Tecnicamente preparados, mas emocionalmente alienados, os constantes entraves presentes no dia-a-dia do trabalhador em posição de chefia comprovam a atuação de um narcisismo mascarado de vaidade que leva, na grande maioria das situações, aos caos, ao estresse, a perda de qualidade de relacionamento, ao prejuízo e perda de tempo.

Muitos desses investimentos remetem para a idéia de um líder conectado consigo, com seu mundo subjetivo e, partindo disso, com grande capacidade de lidar com pessoas, seja direcionando ou inspirando. Mas esse esforço não consegue e nunca conseguirá atingir as potencialidades subjetivas, pois o narcisismo presente não é foco de desenvolvimento pessoal, muito menos digno de observação e cuidados.

Pois bem, esse conhecimento está sendo utilizado para uma melhor forma de viver? Será que a liderança é, por fim, uma forma de alienação dos sujeitos reféns de sua vaidade? Chama-me atenção essa específica relação visto que o ambiente de trabalho ancorado numa carreira de liderança propicia um aclaramento dos investimentos libidinais mais do que em qualquer outro lugar. As barreiras do ego estão sempre presentes no trabalho de aconselhamento profissional onde as maiores dificuldades do cotidiano de mostram intimamente ligadas às defesas pessoais e não a decisões profissionais.

Muito se investe em desenvolvimento de capital humano nas organizações e, atualmente, com um discurso aparentemente mais humanista. Qualidade de vida virou produto e a empresa entendeu isso. Com seus arsenais midiáticos produzem sujeitos desejantes com vontade de realizar mais e mais. Ao mesmo tempo, um confronto se instala entre as paredes do escritório, cujo produto é um sujeito incapacitado de agir, imerso num narcisismo alienado, cego para as escolhas dos caminhos e surdo frente ao próprio estardalhaço que cria. Afinal de contas, a cultura aponta para que todos sejam fortes, com um ego forte, certo?!
Comunicações distorcidas, posturas conflitantes, decisões arrogantes, abuso de poder e humilhação são apenas amostras de uma subjetividade enfraquecida e dominada pelo narcisismo, por um ego distônico.

Parece que o líder precisa ser quase um super-homem para conseguir desenvolver tantas qualidades e, ao mesmo tempo, conseguir ser líder de seus próprios desígnios. Questiono o quanto esse processo possa ser penoso e angustiante se este sujeito encontra-se distante de sua subjetividade, carente de reflexões e humildade para realmente “se enxergar”, e assim fazer contrapostos com os ditames sociais. Vejo barreiras e empecilhos em torno do ego, calcadas num narcisismo ciumento, que emperram esse trajeto. A liderança, se realmente pode ser desenvolvida, deve necessariamente passar pela maturidade psicológica e não relegada a padrões de comportamento. Vale aqui a questão: A análise seria uma opção necessária para os líderes?

Digo isso em virtude de um trabalho que também desenvolvo junto a lideranças nas organizações em franco crescimento. Trabalho este conhecido como Coach, focado na maturidade profissional, que procura promover melhores condições sobre a atual situação do líder e assim possibilitar uma reflexão sobre os bloqueios, medos e dificuldades que sente na condução de seu trabalho na empresa. Existem tantas dificuldades de ordem egoica na condução desse trabalho que me fez remeter as formas de funcionamento desses egos, a partir do narcisismo e o conseqüente surgimento do Ideal de eu (Ideal de ego).

Lembro-me de uma palestra com o psicanalista Joel Birman cujo tema foi “A Família Contemporânea” onde conclui que o individuo atual carece de uma dose de narcisismo por parte do trabalho de análise visto que seu narcisismo foi mal elaborado ou, melhor dizendo, sua construção foi fragilizada e que tal sujeito carece de um olhar desejante. Isso me fez pensar na vaidade presente no ambiente corporativo onde a necessidade de atenção a qualquer custo, proveniente talvez dessa falta de “narcisisação” infantil, promova um descompasso geral contribuindo para situações de estresse e angústia sem que os sujeitos de dêem conta disso. Percebe-se a atuação do neurótico, subjacente, dominado por seu ego em conflito, este com defesas constantemente armadas frente a uma “guerra” proveniente da presença do outro. Esse outro, como detentor de seus desejos, que precisar ser eliminado. Como disse Freud em Totem e Tabu, “a neurose é o preço que se paga para se sair da barbárie”. A barbárie imposta pelo escritório?

Em sua obra “Sobre Narcisismo: uma introdução”, Freud nos conduz uma conceituação particularmente interessante nesse jogo de relacionamentos: o Eu Ideal e o Ideal do Eu. Tais conceitos partem da introdução da seqüência de funcionamento libidinal caracterizadas pelas fases de auto-erostismo, narcisismo e escolha de objeto que culminam na formação de um eu ideal e ideal de eu. O narcisismo, a partir do auto-erotismo, precisa se distanciar da perfeição narcísica infantil para que se dê o desenvolvimento do eu, e isso ocorre pelo deslocamento da libido para um ideal do eu imposto em choque com o exterior. Mas apesar do distanciamento há uma tentativa de readquirir o narcisismo perdido, num movimento rumo a um novo ideal caracterizado como narcisismo secundário. Diz Freud:

“O Narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo ego ideal que, o qual, como o ego infantil, se acha possuído de toda as perfeição de valor... Ele não está disposto renunciar a perfeição narcisista de sua infância, e quando ao crescer se vê perturbado pelas admoestações de terceiros e pelo despertar de seu próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição, procura recuperá-la na nova forma do ideal do eu. O que projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituo do narcisismo perdido na infância, na qual ele foi seu próprio ideal.”

Ou seja, o narcisismo “popular” é o narcisismo secundário, que surge a partir de um retorno da libido externa para o eu ideal do narcisismo primário. Todo o momento pulsional passa e é mediado por um ego constituído a partir desses narcisismos. O narcisismo do ego ideal é transferido para os ideais que o sujeito passará se esforçar para alcançar no futuro, numa promessa da restituição, pelo menos em parte, da perfeição narcísica perdida. E é aqui onde o sujeito para.

De acordo com Bleichmar, o narcisismo adquire uma prioridade sobre a biologia. A exigência de ser amado, exigência egóica, se desenvolve a partir de uma necessidade de satisfação narcísica. Tal necessidade de satisfação, agirá no psiquismo como uma espécie de atividade pulsional, sendo sempre convocada a ser satisfeita, acompanhando o sujeito por toda sua vida, levando-o a ultrapassar e superar as tendências pulsionais parciais.

“Originalmente, o eu é objeto privilegiado de investimento libidinal, a ponto de se constituir como o grande reservatório de libido, armazenador de toda libido disponível. Esse momento, Freud denomina como narcisismo primário. Posteriormente, o investimento libidinal passa a incidir sobre objetos (representações), o que corresponde à transformação da libido narcísica em objetal. No entanto, diz Freud, “durante toda a vida o eu continua sendo o grande reservatório a partir do qual investimentos libidinais são enviados a objetos e para onde são recolhidos, tal como um corpo protoplasmático que estende ou recolhe seus pseudópodes. O retorno desse investimento libinal ao eu, após ter investidos objetos externos, Freud denomina narcisismo secundário".

Refletindo sobre o estagio do espelho, de Lacan, a formação do eu se dá através do olhar do outro, desse outro significante. Numa metáfora do espelho, onde o bebê se reconhece a partir do olhar de si mesmo, é o “como” essa criança é olhada que contribui para a formação do seu narcisismo – inconscientemente reconhecida. Como significantes, entendemos não somente as figuras paternas, mas também todo um grupo onde, para o sujeito, se vê inserido e significado. No narcisismo primário o eu ideal é formado a partir de uma imagem, do imaginário do bebê. Após a resolução do complexo de Édipo, através da interdição do pai (Nome do Pai em Lacan), a criança passa a ter acesso a ordem simbólica, a ordem do outro.

Pensando assim, como será que atualmente esses “eus” estão se constituindo, numa sociedade marcada por tantas contradições? A ausência de significantes ou a incapacidade psíquica de se olhar parece contribuir com indivíduos carentes, dominados por “eus” desejantes. Mas, desejantes de que?

Como se percebe, parece que a presença da análise na vida dos indivíduos teria muito a contribuir com seus caminhos, pois se trataria – “no divã” - as defesas que aparecem no cotidiano, estabelecidas a partir desse ego “particularmente narcisisado”, promovendo um estado melhorado na relação do eu com o outro. Pensando em Lacan, é no simbólico, caracterizado com o narcisismo secundário que se tece as relações desejantes a partir do desejo do outro. Esse outro ficaria destituído como ameaça frente a análise e, conseqüentemente, sem necessária destruição o que possibilitaria uma visão menus cruel da realidade circundante como também contribuiria para um superego menos castrador. Deixar com o outro o que é do outro e lidar apenas com o que é próprio contribuiria para um fortalecimento de um ego mais saudável. Admitir que esse eu é incompleto é abrir mão de parte desse narcisismo para aceitar a incompletude.

Concluindo, a relação analítica tem muito a contribuir para um amadurecimento psíquico em qualquer instância e, muito significativamente, para as relações que envolvem o sujeito, o sujeito do inconsciente, com o universo do trabalho.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sonhos do avesso

"As pessoas vivem culpadas por não conseguirem gozar tanto quanto lhes és exigido. Culpadas por não alcançar o sucesso e a popularidade instantâneos, por perderem tempo em sessões de análise – culpados por sofrer. O sofrimento não tem mais o prestígio que lhe conferia o cristianismo. Sofrer não redime a dívida; ao contrário, reduplica os juros”


Maria Rita Kehl
Caderno Mais! Folha de SP. 06/09/2009

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Frase do momento

"O EGO é nosso sócio oculto - muitas vezes com participação majoritária"

Cullen Hightower

domingo, 19 de julho de 2009

A geração XY

A história das eras marca a presença de algo no mercado de trabalho não muito difícil de constatar: existe uma nova geração de trabalhadores nascidos no berço da globalização, do consumismo, das novas tecnologias, sem grandes bandeiras e comprometimentos. Na era digital, onde a Internet se apresenta cada vez mais acessível e rápida, essa nova geração parece que nasceu adaptada ao atual mundo veloz e de satisfações imediatas. Chamada de Y, essa geração se caracteriza pela familiaridade com as tecnologias, velocidade em suas ações e reconhecimento instantâneos. Por um lado, são fortes e boas tais características, visto que necessitamos de rapidez e desprendimento para decisões cada vez mais acertadas, encarar a tecnologia e a internet como aliadas incontestáveis e assim usufruir das “beneces” da produção de consumo. Essa geração, por outro lado, não se prende a aparentemente nada, dizem, e a falta de compromisso e tato para lidar com as outras gerações reflete um desafio enorme para as empresas e seus RHs. Afinal de contas, como manter as qualidades de todas as gerações trabalhando em conjunto com mesmos objetivos se suas personalidades estão, aparentemente, caminhando em direção opostas?

A diversidade, como bem nos mostra a vida, só traz qualidade e assim conviver com a diferença passa a ser um desafio a ser percorrido visto o crescimento pessoal que essa experiência proporciona. Se temos uma geração nova pouco tranqüila nesse “conviver” que exige, dentre outras coisas, consideração, respeito e paciência, as gerações anteriores não podem deixar de perceber que as coisas mudaram e continuam mudando a velocidades cada vez mais aceleradas. Assim, vejo que a mudanças de características entre gerações podem beneficiar e muito, não somente a organização, mas todos que nela trabalham. Afinal de contas, esse confronto possibilita o crescimento individual e profissional de seus participantes em contato freqüente e direto com novas perspectivas provenientes tanto de gente comprometida e cautelosa, como com pessoas muito ágeis e adeptas do avançar rapidamente. Se pudesse chutar, diria que o desafio atual é entender que as organizações vivem num ambiente XY e não num ambiente de confronto de gerações X e Y.

Tanto as gerações anteriores como as que ainda surgirão, irão exigir do mundo do trabalho uma maior flexibilidade e dinamismo na condução de seus objetivos. Ambas se beneficiam dessa diversidade, mas ambas enfrentam os paradigmas pessoais. Do confronto, sai a melhor resposta, e a organização ganha em administrar tais confrontos trazendo a tona os pontos positivos de cada geração a fim de se estruturar frente a velocidade de mudança do mundo pós-moderno refletido nas relações humanas presentes no ambiente de trabalho.

Resumindo: salve a geração X. Salve a geração Y. Que estejam presentes, trocando e aprendendo mutuamente. Os colegas agradecem, os objetivos também. As possibilidades se multiplicam rumo a um novo equilíbrio que pode ser saudável, menos angustiante e depressivo. Que co-existam em paz.

domingo, 12 de julho de 2009

Jim Collins e a crise "das pessoas"


Jim Collins, autor dos livros Feitas para Durar e Empresas Feitas para Vencer, está na capa da revista Exame, edição 946 de Julho de 2009. Considerado como sucessor legítimo de Peter Drucker, o maior teórico de todos os tempos, Collins discorre sobre o porquê empresas poderosas quebram e como a adversidade separa grandes líderes de executivos medíocres. Independente das considerações sobre os livros citados e alguns exemplos atuais relacionados a crise atual, a matéria apresenta algumas informações interessantes a respeito da postura profissional dos executivos por trás das organizações. Citando as últimas pesquisas de Collins para seu mais recente livro – How the Mighty Fall – , este cita 5 fases de como empresas americanas bem sucedidas fracassaram. São estas: 1) Excesso de confiança originada pelo sucesso; 2) Busca indisciplinada pelo crescimento; 3) Negação de risco; 4) Corrida pela salvação e, finalmente, 5) Irrelevância ou morte. Se observarmos com carinho as considerações de Collins sobre cada fase, perceberemos facilmente que existe um desequilíbrio nas lideranças que as levam tomar atitudes equivocadas. Parece que exagero e coragem se misturam numa visão equivocada da realidade, um embasamento seletivo da própria casa ou, se preferirem, uma falta de conhecimento sobre a própria companhia e seus colaboradores.

Pensando de outra forma, a própria desorganização externa, que está presente nos corredores internos e dados externos para quem quiser ver, se traduz como a própria desorganização interna dos líderes que, atuando por exigências equivocadas de sua personalidade, não percebem os reais destinos de suas decisões. O mais interessante, entretanto, é notar que se fala sempre que determinada empresa tomou tal atitude ou deixou de ver tal situação crítica e esquecemos que, por detrás dessa “empresa”, existe uma cultura organizacional regida por pessoas espelhadas pelas posições de lideranças de suas chefias e presidências.

Collins também identifica alguns estágios de fracassos, nivelados de 1 a 5, onde “uma empresa pode estar doente antes de aparentar fraqueza”. Apesar de suas pesquisas encontrarem retomadas extremamente positivas, ele constata que preocupação com a gestão e menos arrogância são importantes para se manter uma empresa saudável por muito tempo. Quem anda equilibrado, entendo, não precisa de medidas extravagantes e nem salvadores da pátria, mas sim foco e persistência nos valores, “refletindo e agindo com determinação”. Os extremos parecem indicar o futuro da organização, assim como os extremos na vida pessoal dos sujeitos alertam para uma calamidade anunciada.

Assim, repetimos em nossa vida profissional, a desarmonia interna existente em nós mesmos. A incapacidade de enxergar tais equívocos, dominados por forças “ocultas” irão, cedo ou tarde, se fazer presentes de forma dolorida. Os obstáculos que a vida nos proporciona são os verdadeiros testes de quanto maduro psicologicamente estamos para ter uma vida saudável e digna de ser vivida. Caso contrário, quando não aprendemos com o que está acontecendo dentro da gente, certamente, isso se refletirá fora e, inevitavelmente, de forma extremada. Aliás, se você não pára, a vida te pára, seja pelas conseqüências de tal distancia de si, seja num leito de hospital.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Trabalho em Equipe: a dificuldade em lidar com o outro reflete a falta de conhecimento sobre si mesmo.

Bem, tenho realmente pensado muito sobre os ganhos relacionados ao Trabalho em Equipe e o quanto o compromisso de pessoas com o mesmo objetivo pode realmente fazer toda a diferença em qualquer atividade produtiva. Falando assim me parece óbvia tal constatação, mas de alguma forma, temos recorrentes problemas em torno desse assunto e a necessidade de se formar pessoas com perfil de equipe parece não cessar nunca. De alguma forma, somos melhores tecnicamente do que somos em nossos relacionamentos. Nunca se falou tanto em educação e também nunca se investiu tanto em educação corporativa. As maiores e melhores empresas do mundo não investem tanto na educação de seus colaboradores a toa. Mas, afinal, o que estamos fazendo com essa educação toda se a dinâmica de se conviver com outros, na realização de projetos em equipe, continuamente se apresenta conflituosa? Parece que a educação para o relacionamento está fazendo falta, não numa perspectiva de fora para dentro, mas de dentro para fora. Como assim? Explico.

Relacionamento! Essa palavrinha traduz o sucesso ou fracasso em inúmeras situações, pessoais e profissionais, em diferentes famílias e empresas ou culturas diversas. Ironicamente não conseguimos viver sós, mas temos enormes dificuldades para estar junto. Tais dificuldades se expressam no lidar com as diferenças e esquecemos que tais diferenças é o que nos impulsionam a sermos melhores. Então está na hora de repensar nossa postura frente ao conhecimento aprendido e começar a relacionar, intimamente e humildemente, esse conhecimento com nossa personalidade. O que quero dizer é que devemos fazer uma conexão constante dos aprendizados e experiências vividas com o nosso eu verdadeiro.

Você deve estar se perguntando: Mas o que isso tem haver com equipes? Simples: é na dinâmica de equipe que você conhece a si mesmo e, conseqüentemente, é através dela que você tem contato com seus próprios obstáculos, dificuldades pessoais supremas, de forma impactante. As reações frente as dificuldades são as mais diversas e, na maioria das vezes, gera mais problemas do que soluções. Veja, por exemplo, algumas características que equipes altamente eficazes possuem:

1- Comunicação eficiente e agradável
2- Compromisso das pessoas com os objetivos
3- Compromisso das pessoas com desenvolvimento do outro
4- Oportunidade de se aperfeiçoar constantemente
5- Habilidade em enfrentar situações delicadas e de conflitos
6- Bons valores
7- Caráter

Pois bem, como compartilhar tais características se um tom de voz pode despertar uma agressão ou um silêncio perpétuo? Com quais compromissos me vinculo independente dos meus interesses pessoais? Como me deixar aprender com o outro, se não posso demonstrar fragilidade ou insegurança? Como compartilhar valores se a minha decisão é a que deve ser acatada? Como me desenvolver livremente, utilizando de todo o repertório de conhecimentos e experiências, a serviço da inovação e criatividade se tenho que lidar com a desconfiança generalizada? Percebe-se assim que a dificuldade do trabalho em equipe remete-se diretamente ao auto-conhecimento de todos os membros e, esse processo de auto-aprendizagem, ocorre em tempos e de maneiras diferentes para cada uma das pessoas, o que exige de todos um respeito particular por esse processo. Esse respeito somente é alcançável se nesse processo houver espaço para a humildade de aceitar, de esperar e de ceder, sem receio de perder, de se rebaixar ou desaparecer.

Partimos agora dos maiores problemas que envolvem as equipes de trabalho para perceber o quanto as características pessoais, de humildade e respeito, estão presentes em todas as situações.

1- Reuniões improdutivas
2- Reuniões produtivas, mas somente as reuniões o são
3- Rivalidade entre equipes
4- Confronto de personalidades
5- Comunicação ineficiente
6- Liderança falha

Exemplificando com comentários dos itens apresentados: “Nunca existe pauta para as reuniões!!”, “Muito se fala nas reuniões, mas pouco de faz”, “A concorrência entre equipes destrói a qualidade do meu trabalho”, “Nunca se entende o que o outro deseja”, “Aquela pessoa é muito difícil de lidar”, “A chefia não faz nada a respeito”, são situações onde falta o aprendizado sobre si, o conhecimento desse nosso eu, juntamente com o exercício da humildade e do respeito. Se tivermos coragem para procurar em nós aquilo que somente enxergamos no outro, talvez seja este o melhor caminho para o exercício pleno e gratificante do trabalho em equipe.

Somente com essa “dura” jornada de aprendizado, tanto técnica quanto pessoal, rumo a uma maturidade individual é o que vai permitir o desenvolvimento de uma equipe altamente eficiente, pois somente desprendido de preconceitos, medos e inseguranças, é que se pode compartilhar experiências de forma genuína, utilizando uma comunicação eficiente, pronta, aberta e direta e, ao mesmo tempo, simpática, sem correr qualquer risco, ou melhor, correndo o risco de se tornar cada vez melhor – melhor profissional, melhor pessoa.